Dribles desconcertantes

O futebol brasileiro perdeu, no último dia 4, um de seus maiores ídolos – dentro e fora das quatro linhas. Aos 57 anos de…

O futebol brasileiro perdeu, no último dia 4, um de seus maiores ídolos – dentro e fora das quatro linhas. Aos 57 anos de idade, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira faleceu, após sucessivas internações nos últimos meses, por complicações em decorrência do consumo prolongado de álcool. Gênio e doutor, ele deixa saudades! Em homenagem ao Dr. Sócrates, vamos lembrar algumas jogadas, que foram imortalizadas por seus “criadores”. Começando, então, pelo próprio:

TOQUE DE CALCANHAR – Alto e magro, Sócrates acostumou-se a jogar de costas, para se desvencilhar da marcação. Logo ficou famoso, entre outros lances, pelos passes e gols de calcanhar. Só mesmo a genialidade do Doutor para adequar suas características físicas a um estilo próprio de jogar futebol e, com ele, criar esta jogada, que ressalta a inteligência de seu criador exatamente pela simplicidade.

DE LETRA – Este toque é pura plástica e exige coordenação, rapidez e precisão. Com o domínio da bola, deve-se passar um pé por trás do outro para alcançar e tocar a pelota. É claro que não vale cair! Um lance típico de jogadores considerados “abusados”. Não sabe-se precisar quem inventou tal toque.

CANETA – Chamada, ainda, de rolinho ou janelinha. Neste drible, o jogador rola a bola por debaixo das pernas de seu marcador e corre pelo lado para buscá-la novamente. Este drible é, até certo ponto, comum. Não há referências específicas sobre o provável criador.

DE ROSCA – É o mesmo chute de “três dedos”, executado com a parte externa do pé. Também é chamado de trivela. É preciso ter categoria. Quem adorava esse chute e o ensinava a seus jogadores era Telê Santana.

ELÁSTICO – Este drible, inventado por Roberto Rivellino, era considerado sobrenatural. De certa forma, ainda é! Quem nunca vibrou com o movimento de vai e vem com a bola, usando o mesmo pé? Com a bola praticamente grudada ao pé, o jogador finge que vai lançar em uma direção e, abruptamente, inverte o destino 180º. Foi pela canhota deste ídolo de dribles curtos, chutes fortes e lançamentos milimétricos que a jogada desconcertante se imortalizou.

O QUASE ELÁSTICO – No início do século XX, Charles Miller inventou uma jogada muito parecida com o elástico, eternizado posteriormente por Rivellino. O lance foi batizado com o primeiro nome de seu criador. Cada vez que um jogador fingia levar a bola para um lado mas, imediatamente, a tocava para o outro, estava fazendo um Charles.

DRIBLE DA VACA – Também conhecida como meia lua, a criação dessa jogada é atribuída ao saudoso Mané Garrincha. Aliás, driblar era com ele mesmo. O Ajo das Pernas Tortas entortou muitos adversáriosem campo. Nestelance, o jogador fica de frente para o oponente, toca ou chuta a bola para um lado e corre no sentido oposto, buscando a bola novamente e deixando o marcador perdido. Este drible era uma pérola de Garrincha.

CHAPEU – Também conhecida como lençol. Esta foi uma invenção genial de ninguém menos que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O jogador lança a bola por cima da cabeça do adversário e a pega do outro lado, com classe e ginga. O Rei driblava, mas sempre em direção ao gol. Seu futebol era objetivo e não permitia firulas ou excessos. Também é atribuída a Pelé a paradinha nas cobranças de pênaltis.

CHALEIRA – Esta exige categoria do driblador para ser executada. O atleta chuta a bola passando uma perna por trás da outra. Quem adorava fazer esta jogada era o baixinho Romário.

PEDALADA – Quando se fala neste drible, uma das primeiras imagens que vem à mente é de Robinho, por mais que ele não seja considerado propriamente seu inventor. Inúmeras vezes o garoto da Vila Belmiro foi em direção ao marcador, passando o pé sobre a bola repetidamente, com o objetivo de enganar o adversário em relação ao lado para o qual ele prosseguiria com a jogada.

BICICLETA – Um lance que enche os olhos de qualquer admirador do belo futebol. Apesar de algumas controvérsias (há quem defenda que seu criador tenha sido Petronilho de Brito), foi imortalizada por outro gênio do esporte: Leônidas da Silva. A bicicleta é uma das mais plásticas jogadas do futebol. Exige inteligência para acompanhar o tempo exato da bola, além de uma performance até certo ponto acrobática.

LAMBRETA – Mais comum no futsal, é um drible de alta complexidade na execução. Segurando a bola com os dois pés, o jogador a retira rapidamente do chão e a joga para cima, passando pelo marcador. Já que falamos das quadras, um exímio executor da lambreta é o craque Falcão, que também imortalizou a carretilha, outra jogada desconcertante para qualquer oponente.

FOLHA SECA – Inventada por Didi. O nome da jogada traduz o efeito dado pelo craque na bola. Numa cobrança de falta, o goleiro se atira para fazer a defesa na direção certa mas, no último momento, a bola desvia-se para dentro do gol, lembrando o movimento de uma folha seca quando cai da árvore.

DRIBLE DA FOCA – Este foi um sucesso recente de outro jogador “abusado”. Em 2007, Kerlon, do Cruzeiro, mostrou sua intimidade com a bola e a habilidade em fazer embaixadinhas, mas com a cabeça. Trata-se de conduzir a bola quicando na testa, para depois finalizar com o chute.

DRIBLE DO VENTO – A invenção do chileno Valdívia foi assim batizada pelo jornalista Flávio Prado. Nada mais é do que um chute propositalmente “furado” para enganar o adversário e, só então, melhorar o passe ou finalizar a gol.

Estas são algumas das jogadas mais envolventes e, podemos dizer, tipicamente brasileiras. Mas há muitas outras e, como o esporte está sempre em evolução, certamente, os gênios da bola do chamado País do Futebol nos reservam novos presentes no futuro.